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Por  Joana Salém Vasconcelos

A geração de Boric experimentou os resultados de um acordo transicional de continuidade entre a ditadura e a democracia, costurado em um tempo que ainda não podiam ser convocados a opinar. Mas agora opinam. Na última década, os jovens entre 15 e 30 anos têm enchido as ruas do país para exigir um novo pacto social, que supere a astuta armadilha pinochetista.
    
Nesse sentido, Boric foi um dos milhões de estudantes que esteve nas ruas de Santiago em 2011, quando cursava Direito da Universidade do Chile. Durante aquele ano de marchas, greves e ocupações, o jovem puntarenense tornou-se uma importante liderança social. Sua representatividade foi respaldada quando, no ano seguinte, foi eleito presidente da FECh (Federação dos Estudantes da Universidade do Chile), numa conjuntura em que os estudantes protagonizavam a polarização social do país. Impulsionado pela energia das mobilizações, em 2013 Boric se elegeu deputado independente pela região de Magallanes com 15.418 votos. Era militante da Izquierda Autónoma, mas em 2016 acompanhou uma ruptura que originou seu atual partido, o Movimento Autonomista.
    
Nos últimos meses do seu mandato e em busca da reeleição em novembro, Gabriel Boric nos respondeu questões sobre a situação política chilena, a reforma educacional de Bachelet, a crise do pacto transicional, o movimento por uma nova constituinte e, enfim, esse novo sujeito político das esquerdas: a Frente Ampla.



Joana Salém: Desde o le­vante es­tu­dantil de 2006, e mais for­te­mente desde 2011, a edu­cação se tornou um dos temas mais im­por­tantes da agenda po­lí­tica chi­lena. Mas a re­forma edu­ca­ci­onal de Ba­chelet está sendo re­cha­çada pelos mo­vi­mentos es­tu­dantis e sin­di­catos de pro­fes­sores. Na sua visão, quais são os prin­ci­pais pro­blemas dessa re­forma?

Ga­briel Boric: A raiz do nosso de­sa­cordo com essa re­forma é a mesma que levou a mi­lhares de es­tu­dantes, pro­fes­sores e “apo­de­rados” (mães, pais, res­pon­sá­veis) chi­lenos a sair às ruas: o fato de que não se ga­rantia, com ela, uma Edu­cação Pú­blica, Gra­tuita e de Qua­li­dade. A edu­cação não é gra­tuita. A per­gunta é: quem deve fi­nanciá-la? Nós di­zemos que deve ser a so­ci­e­dade como um todo e, para obter esses re­cursos, se deve fazer um aporte subs­tan­cial dos mais ricos. Acre­di­tamos que isso deve ser feito me­di­ante uma re­forma tri­bu­tária mais in­ci­siva que a que fi­nal­mente se aprovou. 

Es­tamos dis­postos a con­versar sobre a gra­du­a­li­dade desse pro­cesso, mas sem co­locar em questão o es­pí­rito da re­forma. A exi­gência ema­nada do mundo so­cial é clara: Gra­tui­dade Uni­versal. Mas o go­verno apre­sentou uma re­forma que não ex­pli­cita isso. Pelo menos con­se­guimos ga­rantir o fim do Cré­dito com Aval do Es­tado (CAE), me­ca­nismo criado pelo ex-pre­si­dente Ri­cardo Lagos. O CAE am­pliou a co­ber­tura de cré­dito, mas a custo de um en­di­vi­da­mento de mi­lhares de es­tu­dantes chi­lenos com altas taxas de juros.
 
Por tudo isso, fi­nal­mente de­ci­dimos com Gi­orgio Jackson (de­pu­tado da mesma ge­ração pelo par­tido Re­vo­lução De­mo­crá­tica) nos abster na pri­meira tra­mi­tação do Pro­jeto de Re­forma. Jus­ta­mente para que pos­samos se­guir dis­cu­tindo mais adi­ante, com a par­ti­ci­pação real dos mo­vi­mentos so­ciais, até que se apro­xime da­quilo que a ci­da­dania está exi­gindo há algum tempo.

Joana Salém: A atu­ação da JC (ju­ven­tude do Par­tido Co­mu­nista chi­leno) foi muito des­ta­cada nas mo­bi­li­za­ções es­tu­dantis de 2011, contra o lucro na edu­cação. Na­quele ano, Ca­mila Val­lejos era pre­si­dente da FECh e tornou-se uma li­de­rança com pro­jeção in­ter­na­ci­onal. Qual foi o papel do Par­tido Co­mu­nista e par­ti­cu­lar­mente da de­pu­tada Ca­mila Val­lejos na con­dução da re­forma edu­ca­ci­onal de Ba­chelet?

Ga­briel Boric: Sem dú­vida, Ca­mila ocupou uma po­sição de li­de­rança muito im­por­tante para o mo­vi­mento es­tu­dantil. Mas não se deve se­parar isso da sua mi­li­tância no PC, par­tido que na­quele mo­mento era opo­sição ao go­verno Se­bas­tián Piñera. Hoje o PC é parte do go­verno Mi­chele Ba­chelet e muitos de seus mi­li­tantes, Ca­mila entre eles, pa­recem estar em uma po­sição incô­moda. Por um lado, têm sin­ceros de­sejos de se­guir apoi­ando as de­mandas dos es­tu­dantes de hoje. Por outro, são fre­ados pelos com­pro­missos de par­ti­ci­pação em um go­verno que não deu os passos de­ci­sivos para acabar com o lucro na edu­cação chi­lena. Mas nós não per­demos a es­pe­rança de que algum dia essas di­fe­renças sejam dei­xadas pra trás e nos en­con­tremos po­li­ti­ca­mente.

Joana Salém: Um dos mais fortes le­gados de Pi­no­chet sobre as ins­ti­tui­ções po­lí­ticas chi­lenas foi o sis­tema bi­no­mial, que ori­ginou uma de­mo­cracia con­tro­lada pelo cha­mado du­o­pólio: Con­cer­ta­ción/Nueva Mayoria e Ali­anza/Chile Vamos. A re­forma po­lí­tica de Ba­chelet pode efe­ti­va­mente co­locar fim ao sis­tema bi­no­mial, como está sendo anun­ciado? Quais são os avanços e li­mites dessa re­forma?

Ga­briel Boric: Nós acre­di­tamos que o fim do sis­tema bi­no­mial foi um avanço, mas não é su­fi­ci­ente para acabar com o du­o­pólio porque isso se ex­pressa para além do âm­bito elei­toral e abarca todo o es­pectro po­lí­tico e so­cial. Trata-se sim­ples­mente de que o ne­o­li­be­ra­lismo é pre­ser­vado sob a apa­rência de que exista uma dis­puta po­lí­tica, quando na re­a­li­dade o que há é uma luta pelo poder em si mesma, sem ne­nhuma vo­cação de im­pul­si­onar ver­da­deiras trans­for­ma­ções. Com isso que a Frente Ampla busca romper.

Joana Salém: E nesse con­texto, quais são as po­ten­ci­a­li­dades e de­sa­fios da Frente Ampla para que­brar o du­o­pólio nas elei­ções de 2017?

Ga­briel Boric: Nosso maior de­safio até o mo­mento é como crescer, dei­xando de ser um grupo mar­ginal de­di­cado a de­nun­ciar para sermos um con­glo­me­rado de mo­vi­mentos e par­tidos que ofe­reçam al­guma pro­posta de trans­for­mação para o país. Não na “me­dida do pos­sível” (como uma vez disse o ex-pre­si­dente Aylwin), mas “para em­purrar os li­mites do pos­sível”. 

Hoje es­tamos ir­rom­pendo no ce­nário po­lí­tico na­ci­onal não apenas por mé­ritos nossos, mas pelo des­gaste da­queles que pa­recem ter per­dido a co­nexão mais es­sen­cial da po­lí­tica: dos go­ver­nantes com os go­ver­nados. Temos o po­ten­cial de ajudar a re­cons­truir um te­cido so­cial do nosso país e isso é algo que nos move e emo­ciona.

Joana Salém: A pre­si­denta Ba­chelet anun­ciou uma Re­forma Cons­ti­tuinte, como de­man­dado pela ci­da­dania nas ruas. Atu­al­mente se vive a etapa de de­cisão sobre qual será a ins­tância de vo­tação da nova Cons­ti­tuição: o Con­gresso or­di­nário, uma Con­venção mista com de­pu­tados e ci­da­dãos, uma As­sem­bleia Cons­ti­tuinte eleita para este fim ou um Ple­bis­cito para de­finir entre as três op­ções an­te­ri­ores. Mas a au­sência de um Ple­bis­cito pode sig­ni­ficar um pro­cesso vi­cioso, no qual de­pu­tados e se­na­dores ga­rantem sua per­pe­tu­ação no poder. Como ana­lisa essa dis­puta?

Ga­briel Boric: Es­tamos con­ven­cidos de que uma nova Cons­ti­tuição é uma trans­for­mação in­dis­pen­sável para que a mai­oria do país se apro­prie da po­lí­tica; para que o Chile adote uma es­tru­tura de di­reitos que efe­ti­va­mente dê conta dos in­te­resses da ci­da­dania e das pos­si­bi­li­dades do país. O iti­ne­rário que foi pro­posto e le­vado a cabo ti­mi­da­mente pelo go­verno nos co­loca uma série de dú­vidas. 

Por exemplo: por que o go­verno se­guiu o ca­minho mais di­fícil para le­vantar uma nova Cons­ti­tuição, re­que­rendo um amplo apoio da di­reita para des­fazer as amarras que ela mesma impôs? Acre­di­tamos que isso é re­flexo de um pro­blema cen­tral que atra­vessa esse go­verno: a am­bi­gui­dade, a con­tra­dição, ou me­lhor, a falta de con­vicção. Os si­nais mos­tram que o go­verno, ou parte im­por­tante da sua co­a­lizão, na re­a­li­dade está cô­modo com esta Cons­ti­tuição.

Joana Salém: Quais são as prin­ci­pais pro­postas do Mo­vi­mento Au­to­no­mista para uma nova Cons­ti­tuição chi­lena?

Ga­briel Boric: Para nós, uma nova Cons­ti­tuição deve ga­rantir os di­reitos so­ciais e re­cursos na­tu­rais que hoje foram vi­o­lados e sa­que­ados em nome do mer­cado. Deve re­co­nhecer a plu­ri­na­ci­o­na­li­dade de nosso país, a pré-exis­tência dos povos in­dí­genas como nação e suas formas de or­ga­ni­zação ter­ri­to­rial. Deve de­li­mitar cla­ra­mente os li­mites entre a po­lí­tica e os ne­gó­cios. E enfim, o im­por­tante é que o Chile ne­ces­sita uma Cons­ti­tuição le­gi­ti­mada, nas­cida em de­mo­cracia, vol­tada aos de­sa­fios do sé­culo 21.

Joana Salém: Em 2011, você se de­dicou às mo­bi­li­za­ções es­tu­dantis. Em 2012, virou pre­si­dente da FECh, ul­tra­pas­sando a com­pe­ti­tiva can­di­da­tura de Ca­mila Val­lejos. Em 2013, tornou-se de­pu­tado com uma can­di­da­tura in­de­pen­dente por Ma­gal­lanes, rom­pendo a ló­gica do sis­tema bi­no­mial. Agora, nos úl­timos meses do seu man­dato, como ana­lisa essa tra­je­tória do mo­vi­mento so­cial para a ins­ti­tu­ci­o­na­li­dade, suas con­quistas e di­fi­cul­dades? E quais as chances de um novo man­dato?

Ga­briel Boric: O que acon­teceu co­migo como po­lí­tico já ex­cedeu o âm­bito da minha pessoa. Tem a ver com a cons­ti­tuição de um pro­jeto po­lí­tico co­le­tivo, que está em cres­ci­mento há uma dé­cada, para cons­truir uma al­ter­na­tiva po­lí­tica con­ce­bida para su­perar o ne­o­li­be­ra­lismo que ainda nos do­mina. Gosto de pensar que o man­dato que ga­nhamos em 2013 foi um campo de provas e trei­na­mentos para de­sa­fios ainda mai­ores. De­mons­tramos que se pode fazer po­lí­tica sem su­bes­timar as pes­soas, es­tando ao seu lado, es­cu­tando suas in­qui­e­tudes e so­nhos. 

O Mo­vi­mento Au­to­no­mista (MA), agru­pa­mento po­lí­tico ao qual per­tenço, so­li­citou que eu me re­can­di­date por Ma­gal­lanes e eu já ma­ni­festei plena dis­po­sição para fazê-lo, não pela sim­ples ânsia de manter uma po­sição de poder. Tudo in­dica que logo já não es­ta­remos so­zi­nhos no par­la­mento, porque a Frente Ampla já é uma força elei­to­ral­mente com­pe­ti­tiva e isso será de­mons­trado nas pró­ximas elei­ções.

Fonte: Correio da Cidadania