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Por Joanna Burigo

Maternidade é pauta feminista por muitos motivos.

Deveria ser central a todos os feminismos porque apesar de nem todas as mulheres serem mães, todas têm mãe; e a mãe, salvo exceções sobre as quais discorro mais abaixo, é uma mulher.  

Ninguém não tem mãe, e o mesmo pode ser dito sobre o pai. Certos fatos biológicos são indiscutíveis, a não ser que pessoas já estejam sendo criadas em algum laboratório que desconheço. No que diz respeito ao imperativo genético do encontro entre gametas para que um embrião humano seja produzido, debates sobre cultura, gênero, tecnologia, etc. ainda são relativamente irrelevantes.

Mas apenas relativamente.

Uma das dificuldades que residem nos cruzamentos entre fatos biológicos e fatos sociais é escolher palavras com que descrever aquilo que subverte as narrativas hegemônicas que naturalizam certas conexões entre fisiologia e cultura.

Por exemplo, os gametas que geram o zigoto que dará origem ao embrião que vira o feto cujo desenvolvimento produzirá o novo ser não são necessariamente oriundos de quem será “mãe” ou “pai” deste humaninho – vide expressões como “mãe biológica” ou “pai é quem cria”, que podem ser recentes no contexto das tecnologias de reprodução, mas não são nenhuma novidade social.

O sucesso da fertilização in vitro iniciou uma nova era da medicina reprodutiva em 1978, mas processos de adoção existem em vários modelos desde que o mundo é mundo. Novas tecnologias médicas e a quebra de velhos paradigmas possibilitam que homens sejam mães.

Thomas Beatie ficou famoso em 2008 por ser o primeiro "homem grávido". Ele transicionou aos 24 anos e é legalmente homem, mas mantém os órgãos sexuais femininos e já pariu três bebês desde então.

A adoção, a fertilização, e os corpos e identidades que figuram num espectro de gênero que transcende o binário fêmea = mulher/macho = homem contribuem para com o descolamento das palavras “mãe” e “pai” de seus significados meramente fisiológicos, e configurações familiares recentes também vêm modificando discursos sobre celebrações de dia das mães.

Assim, a maternidade é pauta central do feminismo por muitos motivos, dentre eles todas as implicações das significações sociais e jurídicas da palavra mãe, visto que ela transborda e muito a definição puramente natural do fenômeno.

Maternidade é pauta fundamental do feminismo também – e notadamente – quando o enfoque da análise é concentrado não nos deslocamentos linguísticos gerados pela quebra das normas que tendem a conduzir nossa visão de mundo, mas sim quando está firmemente plantado em questões relacionadas exclusivamente aos corpos de mulheres cis – mulheres nascidas fêmeas e que se identificam, vivem, e são socializadas como tal (ou ainda: o que a doxa chama de “mulher normal” ou simplesmente “mulher”, revelando seu caráter normativo e hegemônico).

A criação de novas pessoas depende, e muito, destas mulheres e sua fertilidade. Ao contrário dos corpos dos homens cis, os nossos são essenciais não apenas para a concepção, mas para a gestação e potencialmente amamentação. Esses são fatos biológicos.

Nossos corpos serem atrelados ao papel de adultos encarregados das crianças por causa do fator biológico da maternidade já é uma leitura social. E é uma leitura social pautada em divisão de trabalho, pois criar novos humanos dá o maior trabalho, e feita de acordo com corpos, embora a maternidade não justifique a clara divisão econômica em termos de outros cuidados – com idosos, deficientes, afazeres domésticos e o que mais.

Todos podem cuidar de todas essas coisas, elas não são tarefas de mães, de mulheres. Mães e mulheres fazem outras coisas além de cuidar.

A maternidade tampouco acontece no vácuo e muito menos é um fenômeno individual. Seja a orgânica, acidental ou profissionalmente assistida, a fecundação requer espermatozoides e óvulos, e ainda que a participação do pai no processo se restrinja à concepção e que à mãe acabem recaindo todas as responsabilidades pela cria, a existência do feto e posterior bebê removem da experiência da maternidade qualquer possibilidade de que ela seja um acontecimento envolvendo uma só pessoa.

Assim, maternidade é pauta feminista porque poucas coisas são, ao mesmo tempo, tão pessoais como políticas, tão privadas quanto feitas públicas, tão íntimas quão sociais, e tão radicadas em corpos de mulheres.

Sejamos nós mães ou não, projeções sociais de papeis maternais nos atravessam a todas. Nosso planejamento de vida pode ou não incluir ter filhos, e quer os tenhamos ou não, é naturalizado que nos questionem sobre isso sem cerimônia.

Se não os temos, isso gera um sem fim de dúvidas e julgamentos. (É por não querer? Egoísta. É por não ter dinheiro? Isso não deveria ser motivo. É por não poder? Pobrezinha.)

Se os temos, isso gera outras dúvidas e julgamentos. (Vai ter em casa, com doula? É hippie que nega a ciência. Vai ter no hospital com obstetra, anestesia geral e cesárea marcada? É dondoca e medrosa. É só um? Cuidado com os mimos. São três? Você é louca! Trabalha e deixa na creche? Desleixada. Parou de trabalhar para se dedicar aos filhos? Submissa.)

É um sem fim de preocupações, seja sobre contracepção (métodos disponíveis, custos, efeitos colaterais), seja sobre  concepção (natural ou assistida, testes de gravidez, abortos espontâneos, procedimentos abortivos), seja sobre  gestação (riscos, preconceitos, modificações corporais intensas), seja sobre parto (em casa ou hospital, com obstetras ou doulas), seja sobre o puerpério (depressão pós-parto, amamentação) ou seja sobre tudo o que se estende à criação própria (casa, comida, educação e amor para o novo vivente).

É seguro dizer que ter, ou ter tido, ou ter sido compelida a ter ou não conseguir escapar de ter pensamentos acerca de maternidade ao longo da vida é algo bastante comum entre as mulheres.

Maternidade é pauta fundamental a todos os feminismos porque desde a concepção própria, passando por todos os outros acontecimentos que a precedem e sucedem, os debates sobre o assunto revelam como gênero afeta e é afetado por questões culturais, tecnologias médicas, mercado de trabalho, direitos e tantos outros eixos ao redor dos quais a sociedade é estruturada.

Debater maternidade não é apenas relevante; é determinante para as vidas das mulheres.

Fonte: Carta Capital