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Por Elaine Tavares, jornalista

 

A “farra das delações” iniciada na operação Lava Jato chegou ao presidente Temer, mostrando que a república está efetivamente dominada por uma quadrilha de criminosos. Nada de novo até aí, pois quem conhece as entranhas do sistema capitalista sabe que isso é da sua natureza. O estado existe para gerir os interesses dos donos do capital, mascarando sua ação com a ilusão de que está administrando para o povo. Não está. Pelo menos não o estado brasileiro. 

 

Na nova delação premiada, desta vez conduzida pelo Ministério Público Federal em Brasília, são apresentadas provas concretas sobre a posição do presidente, aprovando a compra do silêncio de Eduardo Cunha, bem como sobre o pagamento a Aécio Neves, com as notas rastreadas até a conta do assessor de Parrela (o dono do helicóptero cheio de cocaína). Registra também em alto e bom som o “modus operandis” do senador mineiro, que assegura, em gravação, que mandará pegar o dinheiro uma pessoa que ele possa matar antes que o delate. Ações dignas de máfia. 

 

A divulgação do conteúdo da delação dos donos da empresa JBS - uma gigante das carnes – afunda mais o processo político, abrindo possibilidades para uma ação organizada popular. Assim, mesmo capengando, com sindicatos desarticulados e centrais de trabalhadores recém despertando, as gentes foram às ruas no dia seguinte à bomba informativa detonada pela Rede Globo, que foi a primeira a dar a notícia. 

 

O tabuleiro do poder no Brasil está em frenético movimento. Na semana passada o juiz Sérgio Moro ouviu o ex-presidente Lula, em um processo cheio de imprecisões e sem qualquer prova material. Comparada à ação realizada em Brasília, as ações de Moro ganham um facho de luz e mostram o quão incompetente é, de fato, a equipe de Curitiba, mais dada a trapalhadas e bravatas do que investigação séria, garantidora de provas. 

 

O vazamento das informações contidas na denúncia dos donos da JBS caíram como uma bomba no país, aprofundando a luta pelo “Fora Temer”, que agora começa a apontar também a necessidade de eleições gerais. O Superior Tribunal Federal autorizou que sigam as investigações relativamente ao presidente do país, e o que se verá nessa sexta-feira é uma série de ações da Polícia Federal visando aprofundar a colheita de provas. 

 

Na noite de quinta-feira, várias cidades do Brasil já registraram atos massivos com a população exigindo a saída de Temer. Ele se pronunciou no meio da tarde dizendo que não vai renunciar. Mas, a sua queda já é dada como certa pelos analistas políticos. Até porque, para a classe dominante, Temer já cumpriu sua tarefa. Agora é hora de colocá-lo no lixo da história e seguir com a entrega do país. Por isso a Rede Globo, que foi quem deu o furo de reportagem, insiste em dizer que o Brasil deve manter a equipe econômica do governo e seguir com as ditas reformas, das leis do trabalho e da previdência. Para os que dominam o jogo, não importa quem é o boneco na presidência. O importante é que a série de mudanças exigidas pelo capital não sejam impedidas. 

 

O Congresso Nacional registra, na atual conjuntura, a primazia de grupos completamente comprometidos com os interesses do capital, com um bom número de deputados - mais de 300 - envolvidos em casos de corrupção. Não haverá mudança no jogo, mesmo que aconteça a queda de Temer.

 

As propostas de “reforma” nunca foram do governo, e sim dos grupos que dominam os negócios no país. Então, se Temer cair e assumir alguém da confiança da classe dominante, nada vai parar. Mesmo em meio ao furacão, os deputados ainda certamente tentarão seguir com algumas votações, ainda que alguns já estejam dizendo que as votações das reformas estão inviabilizadas.

 

O único fator que pode impedir que isso aconteça é ação popular. Só uma reação decisiva e urgente dos movimentos sociais organizados e da população em geral pode alterar o curso dos acontecimentos. 

 

O caso Brasil e a o jogo do império na América Latina

 

Logo após a revolução cubana, em 1959, os Estados Unidos, que já assumira o papel de império depois da segunda grande guerra, pensou um plano para a América Latina, visando impedir que os países da sua reserva estratégica se envolvessem com o sonho socialista, ou pensassem em soberania. Por isso aconteceram as ditaduras em quase todos os países. Era preciso manter a mão dura contra o comunismo. Em nome desse “inimigo” vieram os generais, os assassinatos, as desaparições e as torturas. Foi assim que o império garantiu a continuidade da dependência desses países e sua subordinação aos interesses dos Estados Unidos. 

 

Hoje, o comunismo não aparece mais como o inimigo explícito. E os Estados Unidos inventaram uma tática muito melhor de dominação. Mantém a fachada de democracia e aplicam o processo de destruição, seja econômica ou material. Naomi Klein mostra isso de maneira muito clara no seu livro “A Doutrina do Choque”. Foi assim no Oriente Médio, com a chamada “primavera árabe”. Financiando grupos de mercenários, os Estados Unidos garantiram a destruição da Líbia, no Iraque, do Afeganistão e seguem destruindo a Síria. A guerra, em nome da democracia, provoca uma destruição avassaladora. Destruição essa que será suplantada pelas empresas estadunidenses empenhadas na “reconstrução”. É tudo um negócio. Não importa que para isso seja preciso devastar com a vida das pessoas, matar e mutilar. 

 

Na América Latina a tática tem sido outra, embora a estratégia de destruição e de choque se mantenha. Dependendo do país, os métodos variam, mas o objetivo final é o aprofundamento da dependência e a garantia de dominação sobre os recursos estratégicos. A pequena “primavera” vivida pela região durante a liderança de Hugo Chávez foi um alerta. E os EUA voltaram a investir recursos na desestabilização dos governos mais progressistas, para impedir que o “vírus” da ideia de soberania ou de nacionalismo continuasse a crescer. Hugo Chávez foi tirado de cena, possivelmente assassinado. E começou o processo de derrocada dos governos alinhados com as ideias chavistas. Na Argentina garantiram que um playboy milionário assumisse o governo, totalmente vinculado com os interesses da classe dominante local, que é entreguista e não está nem aí para os argentinos. Se precisarem ficar à sombra do império, como vassalos, para garantir a vida boa, entregam a nação de mão beijada. E é o que estão fazendo. 

 

A Venezuela é quem está sob um ataque mais forte, porque lá, o povo não caiu na conversa da “democracia estadunidense”. Sem Chávez, as gentes seguem mantendo a revolução bolivariana, embora estejam pagando um alto preço. Financiada e orientada pelo império,  a elite local provoca uma guerra econômica, impedindo que remédios e comida cheguem na mão da população, procurando gerar a revolta contra o governo. A resistência tem sido heroica e, por isso, agora passaram a uma segunda fase que é a do terrorismo. Financiam grupos que promovem barricadas, incêndios, depredações e mortes. Vão esticar a corda até a mais alta tensão, esperando que, acossados pela fome e pela carestia, mesmo os bolivarianos aceitem o fim da era Chávez. A resistência segue, mas isso também paralisa o país, que além de ter de enfrentar a contrarrevolução precisa dar respostas econômicas, que ficam cada vez mais difíceis diante do bloqueio promovido pela burguesia que controla o setor de importações. 

 

Agora, no Brasil, os grupos que representam a classe dominante estão promovendo o mesmo jogo de destruição econômica. Uma equipe de gângsteres está no comando do país, seja no executivo ou no legislativo. Tudo está sendo feito para enriquecer cada vez mais os que já são ricos, colocando a maioria na população para pagar por esse novo processo de acumulação do capital. Além disso, as riquezas naturais e a terra vão sendo entregues. É uma nova etapa de acumulação para a elite local e para o capital internacional.

 

Tudo está ligado

 

Assim que o caos político e econômico que ora vivemos não é uma coisa isolada, nem uma particularidade da política brasileira. Faz parte de um processo maior visando a manutenção do poder por parte da pequena parcela que domina o mundo. 

 

Assim que a tarefa histórica que está colocada para a população brasileira é gigantesca porque o caminho tomado pelo Brasil dita praticamente o caminho de toda a América Latina. Sucumbir ao entreguismo e ao domínio político de grupos que se comportam apenas como gerentes do grande capital é voltar a um tempo que foi estancado pela utopia e pela prática concreta de Hugo Chávez. Com ele, a América Latina começou a se levantar, questionando a dívida, a dependência, a subordinação e passou a apontar novas possibilidades de soberania e de solidariedade na Pátria Grande. 

 

Essa ideia generosa e revolucionária é que está sendo combatida agora, em todos os espaços da américa baixa. Na Venezuela com o terrorismo mercenário e no Brasil com a ascensão de uma gente que não tem qualquer sentido de nacionalismo. São, no geral, pequenos criminosos, sedentos de riquezas, que vendem até a mãe se for preciso. Por isso não se compadecem no mais mínimo com a destruição econômica do país. Porque seus bolsos estão cheios. Assim, as contrarreformas continuarão seu caminho, passe o que passe, ainda que paralisem no momento. Podem cair os reis de espadas, de ouro, de copas, não importa. Os gerentes do capital seguirão fazendo seu trabalho.

 

Só uma coisa muda o rumo de tudo isso. O povo organizado e em luta. Capaz não só de estancar o processo de destruição e de entrega das riquezas do país, mas também de apresentar um projeto nacional que aponte para a soberania e para o poder popular. É uma hora histórica. Temos de atuar em consequência. 

 

Fonte: Iela (Instituto de Estudos Latino Americanos