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Por Sônia Weidner Maluf, para Desacato.info.

 

No momento em que finalizo este texto milhares de pessoas, em comoção e indignação, raiva e tristeza, estão reunidas em várias cidades do Brasil e do mundo em protesto contra o assassinato de Marielle Franco.

 

É muito difícil escrever sobre uma morte tão brutal, que abate em pleno voo uma vida de luta dedicada à defesa dos direitos humanos, do povo pobre e preto das favelas, e principalmente das mulheres negras, as mais exploradas, as mais excluídas, as que mais sofrem com o desmonte dos direitos e das políticas sociais. Classe social no Brasil tem raça e tem gênero.

 

Nove disparos sobre o carro em movimento, vindos de outro carro em movimento a dois metros de distância. Quatro, com precisão milimétrica, atingiram Marielle Franco, outros três seu motorista, Anderson Pedro Gomes, que também morreu. Marielle havia acabado de sair da Roda de conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas, transmitida ao vivo nas redes sociais. Os tiros foram disparados a poucos minutos do local do evento, o que indica que houve uma emboscada. Provavelmente o carro foi seguido desde que partiram do local, pois os vidros eram escuros e o atirador sabia exatamente onde estava o alvo.

 

Marielle Franco concorreu pelo PSOL em 2016, sendo a quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro. Era sua primeira candidatura, ela não era filha de políticos, não fazia parte das linhagens que dominam os espaços oficiais de poder no país há séculos. As instituições políticas brasileiras têm classe, tem raça e tem gênero.

 

Mulher, negra, bissexual, mãe, feminista, 38 anos, casada com outra mulher, nascida na Maré, complexo de favelas do Rio, socióloga, ativista dos direitos humanos, contra o racismo e a violência policial, sua atuação política fazia diferença dentro e fora da Câmara de Vereadores. Aquela que havia fugido das estatísticas sobre a população negra e favelada no Brasil. Seu projeto e seu ativismo foi o de pautar gênero, favela, raça e cidade. Integrante do movimento de resistência contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, Marielle havia também assumido, em 28 de fevereiro, como relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a intervenção federal na segurança pública do estado.

 

A premeditação, a precisão dos disparos, a fuga sem roubo, tudo leva a crer que foi uma execução política, muito provavelmente protagonizada por ou a mando de agentes do Estado.

 

Além de ser contrária à intervenção militar, Marielle vinha denunciando a atuação do 41º Batalhão da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro em algumas favelas e cuja violência e acúmulo de assassinatos só aumentou com a intervenção militar. Nesta semana mesmo, 10 de março, ela publicou duas denúncias em sua página no facebook:

 

“Sábado de terror em Acari! O 41° batalhão é conhecido como Batalhão da Morte. É assim que sempre operou a polícia militar do Rio de Janeiro e agora opera ainda mais forte com a intervenção.”

 

“Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior.”

 

E três dias depois, na última terça, ou seja, um dia antes de ser executada, denunciou a morte de Matheus Melo, de 23 anos, no Jacarezinho: “Mais um que pode estar entrando para a conta de homicídios da polícia. Quantos jovens precisarão morrer para que essa guerra aos pobres acabe?”

 

Em 2011, a juíza Patricia Acioli foi executada de modo semelhante, com 21 tiros, por policiais militares ligados a grupos de extermínio no Rio. Onze policiais militares foram condenados como responsáveis pela sua execução. Nos dez anos anteriores a seu assassinato, Patricia havia sido responsável pela prisão de 60 policiais ligados a esses grupos e milícias.

 

A execução de Marielle engrossa as estatísticas de homicídios cometidos contra negros no Brasil (segundo o Atlas da Violência de 2017, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras; um negro é morto a cada 23 minutos). Corpos negros são tomados como corpos matáveis.

 

Ela também aumenta a longa lista de assassinatos e execuções de lideranças políticas populares e de esquerda no país, que só no campo aumentou em 20% no ano de 2016. O extermínio físico de ativistas e lideranças de esquerda se torna cada vez mais um dispositivo do aparato repressivo.

 

Penso que a execução brutal de Marielle tem um significado muito maior do que um número a mais nas estatísticas sinistras. Marielle era uma ativista pelos direitos humanos que denunciava os abusos policiais no Rio de Janeiro. Conhecedora da realidade das favelas e da atuação policial, ela já vinha mostrando como a intervenção militar havia aumentado a violência e a arrogância da atuação da PM, como no caso da revista das mochilas das crianças pela polícia e na identificação de moradores, fotografados compulsoriamente pelas “forças da ordem”. Suas denúncias mostravam a cada dia o fracasso da intervenção.

 

Para especialistas em segurança pública, o Rio de Janeiro tem hoje três grandes forças que se usam da violência e das armas para impor seu poder e influência: as facções do narcotráfico, as milícias formadas por policiais que atuam fora do quadro institucional e as instituições policiais que atuam, ou deveriam atual, de acordo com o que o Estado e as leis determinam. No entanto, cada vez mais fica muito difícil não pensar que tudo isso constitui um mesmo sistema. A corrupção policial, as milícias, os “maus policiais” não são uma excrecência da instituição. Uma das denúncias da Marielle era justamente sobre a violência da polícia em sua atuação pública e institucional também, aquela que fala em nome do Estado O quadro se agrava com a presença da intervenção militar, que institui um quase Estado de sítio informal, com a presença ostensiva dos militares, as revistas de todos os moradores, incluindo crianças, e as tentativas de legitimar o mandado coletivode busca, defendido pelo ministro Raul Jungmann – que obviamente jamais aconteceria no Leblon ou em Ipanema.

 

Ouvi comentaristas hoje afirmando que a intervenção militar no Rio deverá, com o tempo, conter ações como essa que matou Marielle e enquadrar os “maus policiais”. Marielle foi uma analista muito mais precisa e certeira: a intervenção militar do ilegítimo Temer aumentou a violência a que é submetida a população preta e pobre – ou seja, ela não é a solução para o problema da violência no Rio, ela acaba fazendo parte do problema. Buscando conquistar alguma legitimidade que não tem, Temer buscou com a intervenção mudar a pauta do país para a questão da segurança pública, uma máscara para um processo rápido de militarização do golpe e concomitante passe livre para a polícia agir fora dos “protocolos”, principalmente as polícias militares, e a um endurecimento, cujo alvo é sempre o povo pobre e preto da periferia.

 

Marielle e Anderson foram vítimas de uma violência fria, calculada, brutal e ao que tudo indica cometida por alguém perito, treinado, no uso de armas de fogo.

 

Precisamos gritar sua morte, do mesmo modo como ela nos chamava a gritar contra o racismo, o machismo, a homofobia, contra a violência policial, contra a intervenção militar e contra o golpe. Se não prolongarmos sua voz, gritando juntos contra o Estado policial em que o Brasil está rapidamente se tornando, nesta segunda fase do golpe inaugurada com a intervenção militar, haverá outras, muitas outras, Marielles.

 

“Avante, vamos mover as estruturas… De fato a gente não faz nada sozinho”, disse ela em sua última fala pública na Roda de Conversa Mulheres negras movendo estruturas, antes de citar Audre Lorde, feminista caribenho-americana, negra, lésbica: “não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes delas sejam diferentes das minhas! Vamo que vamo ocupa tudo!”

 

 

 

Sonia Maluf Weidner é antropóloga, jornalista, professora titular da UFSC e pesquisadora do CNPq.