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Dando seguimento às discussões sobre alienação em saúde, neste texto irei abordar a alienação em relação às outras pessoas, como um dos aspectos da alienação geral e talvez o aspecto que mais está impactando na saúde das pessoas nos tempos atuais.

 

Por Douglas Kovaleski**, para Desacato.info

 

Marx abordou alguns problemas da alienação já em sua tese de doutoramento. Nela, Marx abordou a alienação a partir do entendimento de “privatização da vida”, a individualidade isolada. Para Marx, o socialista verdadeiro parte da ideia de que o conflito entre vida e felicidade deve cessar, afinal, na natureza esse conflito não existe. Esse debate interno tem por objetivo apenas a individualização, o isolamento e a dificuldade de os trabalhadores se perceberem enquanto classe. Da mesma forma, Marx enfatiza que a exteriorização e alienação constituem um modo de existência independente e que a autoconsciência é a individualidade abstrata.

 

 

Os aspectos gerais da alienação vão conduzir o trabalhador a um estado de autoalienação, onde todos os aspectos já estudados confluem para explicar a situação de angústia vivida pela classe. Mas isso será assunto do texto da próxima semana.

 

Partindo ainda dos escritos de Marx, pode-se perceber em seus textos sobre a questão judaica as consequências da teoria defendida por Rousseau e fortemente combatida por Marx, a guerra de todos contra todos. Essa compreensão do homem faz com que o individualismo se torne ainda mais forte. No certame da política, da vida pública, essa teoria separa o “cidadão público” do “indivíduo privado”, provocando estranhamento com relação ao “ser comunitário”, estranhamento de si mesmo e dos demais.

 

Essa condição de separação vulnerabiliza o trabalhador, coloca-o em condição de abandono, de desprezo, onde a satisfação pessoal não faz mais sentido, pois se esgota no próprio indivíduo, diminui a possibilidades de realização humana e suprime os desejos.

 

Há que se considerar a profundidade que a alienação adquire nos tempos atuais onde o modo capitalista de produção, bem como suas formas de controle e de submissão dos trabalhadores, avançaram de forma acelerada  com a forte concorrência amplificada pelas crises cíclicas do capital.

 

Todo esse contexto aparece de forma muito expressiva na atual condição de organização da classe por meio dos movimentos sociais, sindicatos e outra associações de classe. As gerações mais recentes são o reflexo historicamente construído de uma sociabilidade individualizada, concorrencial e brutalizante, onde a posse de bens e de dinheiro ocupam valoração central na vida dessas pessoas, ao passo que, a militância engajada é considerada desimportante.

 

As consequências desse quadro são terríveis, pois direitos sociais são perdidos diariamente, enquanto as políticas públicas tornam-se cada vez mais voltadas para o bem-estar empresarial. Os investimentos do Estado não priorizam mais o bem-estar mínimo dos trabalhadores, mas estão abertamente voltados para pagamento de benefícios ao grande capital especulativo representado pelos bancos e outras instituições financeiras.

 

Ao trabalhador resta o adoecimento lastreado pelo sofrimento psíquico, pelo medo do desemprego, pela falta de acesso a bens de consumo, pela violência de classe que o patrão exerce ainda mais quando o exército de reserva é numeroso e pela violência social que essa alienação com relação aos outros ocasionam. Afinal o trabalhador atual tem dificuldade de identificar seu inimigo e termina agredindo, muitas vezes companheiros de classe, que vivem a mesma exploração.

 

Por isso as inúmeras formas de organização coletiva não-alienantes* devem ser estimuladas e valorizadas como forma de resistência ao capital e até mesmo de sobrevivência dos trabalhadores individualmente.

 

* Quando falo de formas de organização não-alienantes, estou considerando a problemática atuação das igrejas ou outros grupos religiosos, organizações secretas, como a maçonaria e até organizações políticas muito comuns nos dias de hoje, que valorizam o repertório neoliberal como modo de vida e como modo de solução individual para os problemas.

 

**Douglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos sociais.

 

Fonte: Desacato.info