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Imagem: Odyr Bernardi

Por Dairan Paul, doutorando do PPGJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

O maior protesto político durante as eleições de 2018 entrou para a história no último sábado, 29, quando dezenas de milhares de mulheres saíram às ruas para gritar contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). Organizadas a partir da hashtag #EleNão, as manifestantes ocuparam cidades de todo o país para deixar claro que lutam pela democracia e não toleram valores antidemocráticos, misóginos, racistas e homofóbicos, expressos na figura do atual líder das pesquisas eleitorais.

Tomar as ruas, no entanto, não foi motivo suficiente para uma cobertura jornalística que fizesse jus ao momento histórico. Relatos e fotos comprovam o volume robusto de mulheres que saíram de suas casas, embora o número oficial de pessoas participantes não tenha sido estimado pela própria polícia. Na capital paulista, estima-se que 150 mil cidadãos estiveram presentes no ato.

Em paralelo aos protestos contra Bolsonaro, militantes favoráveis ao capitão da reserva também foram às ruas para defender seu candidato. Embora em número visivelmente menor, receberam destaque comparável ao ato organizado pelas mulheres.

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No Rio de Janeiro, protestos contra e a favor de Jair Bolsonaro, respectivamente. Créditos: Silvia Izquierto/AP e G1.

É o caso do portal G1, cuja cobertura limitou-se a reconstituir a trajetória geográfica das manifestações, com destaque para as cidades que organizaram atos contra e a favor de Bolsonaro. Na madrugada de domingo, a homepage do site estampou lado a lado os protestos contrários e favoráveis, junto de uma notícia com repercussão internacional.

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G1 nivela manifestações contrárias e favoráveis.

Ao discorrer sobre a ideia de “equilíbrio” como sinônimo de objetividade, a pesquisa Liriam Sponholz (2009, pp. 32-33) pontua os possíveis erros que jornalistas podem cometer: “esta noção (…) leva aos mesmos problemas que as de pluralismo e de imparcialidade têm do ponto de vista epistemológico: 1) torna a pesquisa jornalística, ou seja, a observação da realidade desnecessária; 2) afirmações falsas podem ser divulgadas pelo jornalismo, já que estas são apenas apresentadas – e ainda por cima  de maneira equilibrada – mas não averiguadas. Há ainda um outro problema: ‘equilíbrio’ não é necessariamente uma necessidade epistemológica, mas envolve uma questão moral: quem pode ou deve ter a sua opinião de forma equilibrada?”.

Foi sob a justificativa do equilíbrio que o jornal mineiro O Tempoequipara os protestos pró e contra Bolsonaro – no entanto, ao escrever que “milhares de pessoas foram às ruas” para participar dos dois atos, o veículo ignora as diferenças numéricas nas manifestações, como se ambas tivessem atraído alto volume de cidadãos. Nas outras capas de domingo, Estadão sinaliza para uma opção ao centro, enquanto O Globo lembra que “também houve atos a favor do candidato, que teve alta”.

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Extra e Diário de Pernambuco destacaram as lideranças femininas na organização do movimento. A questão de gênero ignorada por outros jornais diz respeito à cegueira do jornalismo para enxergar a mulher enquanto sujeito político, conforme a ressalva da professora Cláudia Lago: “(…) o gênero nos atravessa em todos os aspectos e é elemento chave na política, organizada sob a exclusão das mulheres. Por isso, mulheres que se fazem sujeitos políticos são intrinsecamente revolucionárias, e não é à toa que os reacionários desenfreados precisam por freio nas mulheres. Por isso, também, um movimento inédito, poderoso, pujante e com protagonismo feminino (de mulheres as mais variadas) não teve aos olhos da imprensa o lugar que qualquer outro fato inédito teria no jornalismo”.

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Na cobertura televisiva, a falsa comparação entre as duas manifestações foi objeto de crítica do jornalista José Roberto Toledo, em texto para o site da revista piauí intitulado “Um protesto histórico, menos na tevê”. O autor lembra que a invisibilidade dos movimentos não pode ser explicada unicamente pela lei eleitoral, uma vez que os protestos não promoviam candidaturas, mas rejeitavam os valores expressos pela persona de Bolsonaro. “O resultado dessa omissão e falta de contextualização é que coisas diferentes são tratadas como iguais. Uma manifestação de dezenas, no máximo centenas de pessoas em um lugar é apresentada da mesma maneira e com a mesma magnitude que dezenas de milhares de mulheres em dúzias de cidades. Na tela da tevê, o ato solitário pró-Bolsonaro em Copacabana foi equivalente à maior manifestação popular capitaneada por mulheres na história do Brasil. Felizmente, a internet provê o que a tevê omite”.

Por fim, merece menção à parte a capa do jornal Folha de S. Paulo, não apenas por dar mais destaque a uma polêmica na campanha de Haddad, como por estampar na sua primeira página um editorial revelador, que equipara os discursos do candidato petista e as ações de Jair Bolsonaro.

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O texto solicita que os dois presidenciáveis tenham um compromisso com a democracia. Para o capitão da reserva, cabe um “flerte grotesco com torturadores” (e não a apologia), um “deboche rudimentar das mulheres” (e não o desrespeito) e um “desprezo epidérmico pelas minorias” (e não a incitação à violência). Menciona-se, ainda, a possibilidade de autogolpe sugerida pelo vice, o general Hamilton Mourão (PRTB). O parágrafo seguinte reserva à Haddad uma “agressão constante a decisões legítimas da Justiça e do Congresso”, bem como a falta de autocríticas em relação aos governos anteriores do PT. Folha ainda destaca o “ato de contrição petista pelo apoio incondicional à atroz ditadura venezuelana”. Em comum, os dois candidatos teriam “desejos de intimidar a imprensa” – o caso mais recente de Bolsonaro em relação à revista Veja confirmaria essa tendência, enquanto que a proposital confusão entre censura e regulamentação dos meios de comunicação, como sugere Haddad, seria objeto de espanto para Folha.

O sentido dos extremos é novamente reforçado como algo unívoco, apenas em direções opostas. No Facebook, o cientista político Luís Felipe Miguel questionou os termos que igualam Bolsonaro e Haddad: “Denunciar o viés do judiciário é igual a defender a tortura? Não apoiar a oposição venezuelana é equivalente a fazer apologia do estupro? Recusar a autocrítica pública exigida pelos adversários é o mesmo que propor chegar ao governo pela força das armas?”.

Trata-se de um jogo perigoso para uma imprensa que sofreu assédiocensura e intimidação na última semana, promovidas em parte pelos apoiadores de Bolsonaro. Ora, pretender um suposto equilíbrio no contexto atual não significa praticar um jornalismo acima das contradições morais de nossa sociedade. É, antes, ato irresponsável. Dar nome aos bois e dizer, com todas as letras, que um sujeito candidato a cargo público apoia torturadores e discrimina minorias não significa um retorno ao jornalismo panfletário. Seria, caso os adjetivos se bastassem por si mesmos, mas há ações concretas que contextualizam o cenário e uma longa trajetória histórica já percorrida pelo país, ainda mal acostumado à democracia. Defender os direitos humanos e rechaçar quem os despreza não é ativismo, por mais que alguns profissionais ainda tenham isso em mente. É aderir ao primeiro inciso do sexto artigo presente no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. É praticar, no fim das contas, o princípio elementar do jornalismo.

Referência bibliográfica

SPONHOLZ, Liriam. Jornalismo, conhecimento e objetividade: além do espelho e das contradições. Série Jornalismo a Rigor, v. 4. Florianópolis: Insular, 2009.

Fonte: ObjETHOS

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