Por Clarissa Peixoto

A ideia de hegemonia está ligada à correlação de forças entre grupos e interesses sociais que, em determinada condição material, criam blocos de articulação, isolando as demais forças com as quais cultivam acirramentos. Em outras palavras, ela é resultante de uma conformação social que reúne interesses de classe para dar direção ao conjunto da sociedade.

A capacidade das forças hegemônicas de liderar, forjando um consenso, não se consolida apenas na estrutura econômica e na organização política. Ganha estabilidade no contexto intelectual, moral e cultural, cuja consequência consiste em um processo ativo de significação (MORAES, 2019). Partindo do que pressupõe a teoria gramsciana*, a imprensa cumpre um papel estratégico ao participar do processo de significação de consensos que fundamentam as relações de poder.

No contexto contemporâneo, a agilidade persuasiva das redes e meios de comunicação possibilita aos blocos hegemônicos disseminar sua visão de mundo. O que mantém o jornalismo hegemonicamente na sua localização histórica, como um importante vetor de amplificação dos argumentos dominantes, confirmando a ordem estabelecida.

Não é novidade que a imprensa tradicional, no Brasil, carrega as marcas do seu histórico alinhamento às forças da elite. As relações editoriais se imbricam às relações de interesses econômicos e comerciais de todo o setor privado, assim como se articulam em torno das agendas políticas e dos discursos das classes dominantes.

Se considerarmos os elementos que fundamentam a crítica ao jornalismo, podemos afirmar que a práxis jornalística hegemônica anula a ideologia quando, nos seus enunciados, faz uso da ideia de neutralidade. Também quando trata o fato de forma fragmentada, desconsiderando sua dimensão histórica e social. Essa escassa contextualização, na velocidade do tempo jornalístico que se amplia com a internet (MORETZSOHN, 2012), é recorrentemente sobreposta por discursos que geram efeitos políticos e pela espetacularização (MORAES, 2009).

A imparcialidade pregada pelos veículos de jornalismo hegemônico cai por terra diante das evidências de desequilíbrio entre versões do fato ou do acontecimento. Falsas equivalências buscam dar a mesma dimensão para temas situados em horizontes diferentes. A exemplo disso, podemos atribuir ao jornalismo tradicional uma parte importante do incentivo a narrativas da extrema direita. Não à toa, teve papel fundamental na promoção de Bolsonaro nos anos anteriores à eleição de 2018, apresentando seus posicionamentos como válidos na discussão entre contraditórios, sem realizar um debate crítico e aberto com a sociedade sobre o que significavam.

Outra forma de enquadramento recorrente na imprensa hegemônica consiste em tratar sem equidade as relações de poder. Os contraditórios não são mediados para garantir um equilíbrio entre as narrativas quando não lhes convém. O discurso da imparcialidade valida posições de poder na compreensão do que é público e do que é privado (MIGUEL; BIROLI, 2010), sintetizando a realidade em versões polarizadas e estanques.

A exacerbação deste modelo baseado na notícia como mercadoria e também como virtude ideológica do campo hegemônico, compõem o cenário para o estremecimento da credibilidade que se deve, em alguma medida, à massificação das redes sociais. Uma parcela importante do público, conectada à internet, é capaz de identificar os discursos distorcidos do jornalismo e a sua omissão sobre determinados temas.

O contexto é de crise, mas os veículos hegemônicos – como a força social que os sustenta – observam atentamente as mudanças para construir estratégias de manutenção. A crise de credibilidade, apesar de existir, é relativa. A mídia e o jornalismo ainda influenciam na opinião pública, mantendo a relação entre o poder político e o econômico.

Crise de hegemonia e reações contra-hegemônicas 

Na compreensão gramsciana, uma hegemonia é resultado da vontade coletiva de um bloco social dominante, articulado por uma perspectiva ideológica. No entanto, ela não é estanque: é sempre passível de resistência. Como prevê um quadro hegemônico, as forças que compõem um bloco histórico articulam seus interesses, mas também colocam em jogo as suas contradições.

 Se há uma crise de hegemonia, no cenário brasileiro, a fissura no bloco hegemônico não refletiu em acúmulo de forças para o campo democrático. Ela possibilitou a articulação de um bloco de extrema direita que atua tanto de forma contra-hegemônica, como também preserva os interesses das classes dominantes.

 A extrema direita fascista, articula um movimento contra-hegemônico que encontra ressonância também nas classes populares. Este campo político se movimenta pela descredibilização do jornalismo, ao mesmo tempo que utiliza ferramentas e tecnologias comunicacionais para viabilizar a disseminação de discursos de ódio.

Por outro lado, a mídia hegemônica apropria-se de discursos contra-hegemônicos que costumava silenciar ou desconfiar, em rota de colisão com a extrema-direita. Ao mesmo tempo, é persuasiva na defesa de uma agenda econômica ultraliberal, apoiando recuos de direitos sociais e trabalhistas, o que afeta drasticamente as condições de vida dos brasileiros.

Se para Gramsci a hegemonia é passível de ser disputada e o jornalismo se constitui em uma das arenas dessa disputa, a contraposição ao jornalismo hegemônico pode ser repensada a partir de uma lógica própria de produção e reprodução do conhecimento jornalístico.

Como jornalistas, nos cabe enfrentar as contradições do jornalismo hegemônico ao mesmo tempo em que defendemos o jornalismo como um instrumento importante para responder à crise de desinformação. O que vai determinar o papel do jornalismo na defesa do regime democrático é a “sua capacidade de produzir um tipo de conhecimento” (LIMA, 2018). Por esse caminho, pensando a partir do que defende a teoria de Genro Filho (2012), em um movimento contra-hegemônico radicalmente democrático, o conhecimento jornalístico pode avançar sobre os limites da ideologia capitalista, determinado pelas suas condições históricas originais.

Notas

*As referências à obra gramsciana foram extraídas das leituras dos Cadernos dos Cárcere, de Antonio Gramsci, contidas neste referencial bibliográfico.

Referências

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2012.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. v. 2.

_______. Cadernos do Cárcere. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. v. 3.

_______. Cadernos do Cárcere. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. v. 1.

LIMA, Samuel. Jornalismo e democracia: construção e desconstrução. Observatório da ética jornalística. Florianópolis, 08 out. 2018. Disponível em: http://bit.ly/2pLGTRn. Acesso em: 28 out. 2019.

MIGUEL, Luis Felipe; BIROLI, Flávia. A produção da imparcialidade: a construção do discurso universal a partir da perspectiva jornalística. Revista brasileira de ciências sociais, São Paulo, SP, v. 25, n. 73, p. 59-76, jun. 2010. Disponível em: http://bit.ly/33Cycr6. Acesso em: 28 out. 2019.

MORAES, Dênis de. A batalha da mídia: governos progressistas e políticas de comunicação na América Latina e outros ensaios. Rio de Janeiro: Pão e Rosas: 2009.

 

_______. Poder midiático e disputas ideológicas. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

MORETZSOHN, Sylvia Debossan. Jornalismo em “tempo real”: o fetiche da velocidade. Rio de Janeiro: Revan, 2012.

Fonte: ObjETHOS 
 

 

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