0
0
0
s2smodern

Por Willy Delvalle, de Paris.

 

Arrogante, distante, alguém que não sabe o que é trabalhar, um inimigo da juventude. São alguns dos modos como cada vez mais setores da sociedade francesa se referem a Emmanuel Macron. Segundo a pesquisa mais recente de opinião, do Instituto Viavoice, 65% dos franceses afirmam estarem perdendo com a política adotada pelo atual presidente. E não é para menos.

 

Reforma trabalhista, redução do auxílio moradia e do imposto sobre fortuna, alta no imposto de seguridade social. São algumas das medidas dos primeiros seis meses de mandato. Segundo a CGT, uma das principais centrais sindicais do país, os franceses devem estar preparados para mais: supressão de empregos, estagnação de salários nos serviços públicos, reforma da Previdência e mudanças no seguro-desemprego.

 

A cereja do bolo foi anunciada na terça-feira passada pelo primeiro-ministro Édouard Philippe: o orçamento do país deve ser congelado pelos próximos cinco anos. Claro que ele usou outras palavras. A proposta do governo é que o orçamento “cresça” 1,2% de um ano para outro, abaixo da inflação prevista para o próximo ano, de aproximadamente 1,7% ao ano. O resultado será um corte de 13 bilhões de euros.

 

Prefeitas e prefeitos estão obviamente preocupados. Se nos últimos 30 anos, el(a)es vêm enfrentando cada vez mais dificuldades para manter os serviços públicos em pleno funcionamento, como será depois desse esperançoso anúncio? “Nós não queremos que haja diminuição do orçamento, mas que seu crescimento seja controlado”, disse o primeiro-ministro, num confortante discurso.

 

 

 

Do entusiasmo à frustração

 

Há duas semanas, Macron foi capa da revista americana “Time”, que, de um lado, o anunciou como “o próximo líder da Europa*” e, do outro, “*se ele ao menos conseguir liderar a França”.    

 

A ambiguidade reflete a decadente trajetória do chefe de Estado neste momento. Num primeiro momento, obteve mais de 60% dos votos sobre a extremista de direita Marine Le Pen nas eleições para a presidência e ainda obteve ampla maioria no Legislativo. Foi começar a colocar suas medidas em prática, para a festa acabar.

 

Em setembro, o primeiro protesto. Cerca de 30 mil pessoas na Praça da República contra a Reforma Trabalhista, num ato que uniu os os candidatos de esquerda à presidência Jean-Luc Mélenchon (19% dos votos) e Benoît Hamon (6%), este último do Partido Socialista, que governou a França nos últimos anos.

 

No dia seguinte, Macron sancionou a Reforma Trabalhista, que, dentre outros itens, permite a negociação entre patrões e empregados diretamente, sem intermediação dos sindicatos. A conduta do presidente foi considerada autoritária, sem debate algum com a sociedade.

 

Percepção que, dois meses depois, o jovem político ainda não conseguiu mudar. De acordo com a última pesquisa do Instituto BVA, ? dos franceses acredita que a determinação do mandatário pode ser sinônimo de autoritarismo e a sua coragem, de cegueira.

 

No último dia 16, um novo protesto. Centrais sindicais desunidas resolveram se unir. Não tão numerosa, mas recepcionada por forte aparato policial, a manifestação ironizou o nome do partido do presidente (A República em Movimento): “Em movimento rumo a uma sociedade sempre mais injusta. O retrocesso social não é uma fatalidade”.

 

Para a CGT, que convocou o ato, o projeto de Macron e o do MEDEF (Movimento das Empresas da França) são um só. Um em cada três franceses concorda, ainda segundo a pesquisa BVA mais recente.

 

De acordo com o instituto, há uma percepção de que Macron esquece a questão humana em suas reformas. Jose, de 42 anos, motorista de ônibus com deficiência, faz parte desse grupo.

 

“Nós, deficientes, estamos perdendo com Emmanuel Macron porque agora será mais fácil sermos demitidos”, afirma. Segundo pesquisa do instituto IFOP, na classe trabalhadora, a popularidade de Macron caiu  25% entre maio e setembro.

 

Para metade da população (Viavoice), o presidente quer privilegiar algumas categorias sociais em detrimento de outras. Negra e muçulmana, Fatou, 30 anos, se considera parte do contingente excluído. “Sou da classe média. Ele é o presidente dos ricos”.

 

O pessimismo também cresce entre os jovens, grupo onde a desaprovação aumentou em 30% nos últimos meses, de acordo com levantamento do site JAM. Arthur, 21, estudante de geografia, não se sente motivado o suficiente para acompanhar a política do atual governo.

 

“No meu caso, a situação é a mesma do governo anterior. Mas acredito que muitos, os mais pobres, perderam”. Mas resta alguma esperança. “Talvez haja ganhos futuros”, acredita.

 

Otimismo na França de hoje é para poucos. Segundo a pesquisa Viavoice, só 11% da população se sente “ganhando” com Macron. Pessoas como Guy, 45, consultor de empresas. Defensor das reformas de Macron, considera que o que está ocorrendo na economia do país neste momento é produto da gestão anterior.

 

“As pessoas querem a França do passado. Mas o mundo mudou. A mão de obra na China é mais barata do que aqui. O Brasil também tem um peso na economia mundial. A competitividade é grande. Algo precisa ser feito”, defende.

 

Num país onde 7 milhões de pessoas, 11% da população (2014, INSEE), é estrangeira, tambem procurei imigrantes nas ruas de um importante bairro empresarial e industrial para lhes perguntar sobre a política atual. Ninguém aceitou falar.

 

Abordei uma pedinte, sentada numa calçada da avenida principal. Mas ela não falava francês. Disse apenas que é da Romênia, país cujo contingente de imigrantes por aqui é vastamente marginalizado.

 

O que significará o governo Macron para ela? É algo que neste momento não posso saber. Apenas imaginar.

 

 

 

Chegada ao poder

 

Muitos fatores ajudam a explicar como Macron se tornou o mais novo presidente da história da França. Um deles é um discurso de negação da política dita tradicional. A República em Movimento (LREM, na sigla em francês) se recusa a ser chamada de partido. Seus membros se autoproclamam um “movimento”.

 

À Time, Macron, um amante de História e Filosofia, disse que decidiu reagir e que a atual organização política do mundo não é mais relevante. Banqueiro e ex-ministro do governo dito socialista de François Hollande, jamais se classificou como de esquerda ou de direita. Sua proposta foi negar a política tradicional, polarizada entre esses grupos. Contudo, não só fatores aparentemente racionais o levaram ao posto.

 

É comum ouvir por aqui que as pessoas votaram em Macron por ser jovem e bonito, por passar uma imagem de “dinâmico”, o que foi reforçado por boa parte dos veículos de comunicação. Há relatos de que jornalistas foram demitidos, mesmo em veículos públicos de radiodifusão, depois de tentarem defender o voto nulo no segundo turno. Em um dos debates, Marine Le Pen afirmou que Macron era o “queridinho” da mídia.

 

Sua vida pessoal certamente mexeu com parte do eleitorado. Em 2007, ele se casou com Brigitte Trogneux, sua ex-professora do ensino médio, 25 anos mais velha do que ele. O casamento entre um homem na faixa dos trinta com uma mulher divorciada e que tinha netos é uma subversão do modelo de família católico francês.

 

No dia da vitória, o eleitorado ovacionou Brigitte, que não raro é capa de revistas na França. Um lindo romance, que, ao que parece, já não encanta mais tanto assim.

 

A nuvem de otimismo e ao mesmo tempo de medo que Marine Le Pen se tornasse presidente levou Macron ao topo do Executivo. Mas o que se acredita agora é que parte dos eleitores não havia entendido a proposta.

 

 

Semelhanças

 

Você pode ter a impressão de que já viu cenário parecido no Brasil. E por mais de uma vez. Novidade na política, homem charmoso e elegante, relativamente jovem, defensor dos empresários. Pensou em Collor de Mello? João Doria? Já vimos e estamos vendo, dos dois lados do Atlântico, que essa é uma fórmula perigosa.

 

Mas diferente de Collor e Doria, Macron tem um quê de intelectualidade e preparo, não de pura demagogia.

 

Entretanto, suas semelhanças com nomes da política brasileira vão além. Seu autoritarismo frente à Reforma Trabalhista poderia ter perfeitamente se inspirado em Temer. Com a diferença de que Macron foi eleito presidente, valendo-se disso como salvo-conduto para fazer o que quiser. Já Temer, porque participou de um golpe de estado parlamentar.

 

Apesar da queda de popularidade, ainda há uma parcela expressiva da sociedade francesa que confia e tem esperanças em Macron. No caso de Temer, com aprovação de 3%, os brasileiros não têm esperança alguma com ele.

 

Os dois também diferem quanto à vida pessoal. Na França, o casal Macron-Brigitte chama mais a atenção do público, do que Temer-Marcela, que aliás é o inverso de idades; enquanto Temer tem 77 anos, sua esposa tem 34.

 

E Brigitte desperta certa admiração nas revistas de famosos. Marcela foi capa da Veja no triste episódio do “Bela, Recatada e do Lar”. Se a imagem de uma está relacionada a algo de moderno, a da outra está relacionada ao atraso.

 

O jeito de encarar a impopularidade aproxima Macron de Temer. Ele diz “tudo bem”; que o que importa mesmo é tomar medidas “necessárias”. Entretanto, diferente do ocupante da presidência brasileira, na prática, Emmanuel está tentando fazer algo para ser popular de novo. Recentemente, andou visitando a periferia. Temer nem na rua pode sair.

 

Se para Macron, sua carreira política está começando, se depender de voto, a de Temer acabou. Um cadáver eleitoral.

 

E se a França pode estar perdendo no plano social, no campo geopolítico está ganhando, diferente do Brasil, que está perdendo nos dois. Enquanto no maior país da América Latina, Temer diminui a potência nacional entregando seu patrimônio, Macron busca ampliar a da França.

 

Começou seu governo visitando o Mali, ex-colônia francesa, estabeleceu diálogos com o Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, sobre acordos climáticos. Convidou o presidente Vladimir Putin à França, recepcionando-o no Palácio de Versalhes. Nesse momento, tenta intermediar a crise gerada entre Líbano e Arábia Saudita, depois que Saad al-Hariri, primeiro-ministro libanês, se demitiu do cargo e se “refugiou” por alguns dias no país vizinho.

 

Ainda assim, internamente o cenário não é alentador em nenhum dos dois países. E as semelhanças devem preocupar a nós brasileiros. Primeiro porque se Macron foi uma “surpresa” para parte de seu eleitorado que via nele algo novo, mas descobriu as velhas políticas de opressão contra os mais fracos, nada impede que nas eleições do ano que vem no Brasil o mesmo ocorra com algum novo nome que venha a repetir a receita Macron.

 

Na verdade, no Brasil, o maior risco é de continuidade da política que está aí. Há quem possa dizer que Macron também é continuidade do ex-presidente François Hollande, talvez se diferenciando por aplicar as medidas neoliberais de modo mais profundo.

 

Dois pontos percentuais teriam levado o esquerdista Jean-Luc Melenchon (A França Insubmissa) ao segundo turno com Macron e oxigenado o debate no segundo turno, que, na verdade, foi mais um monólogo, tendo em vista que Le Pen nada dizia de concreto. Era apenas verborragia. Havia outros pelo menos três candidatos de esquerda além do atual líder da oposição. O resultado foi um segundo turno “sem opção”.

 

No Brasil, Bolsonaro é o segundo colocado nas intenções de voto. Se Lula for inviabilizado, haverá um debate direita vs. extrema direita, como no fim das contas aconteceu na França?

 

Um dos caminhos que esse quadro gerou para o hexágono é a institucionalização do Estado de Urgência, sancionada por Macron, que permite que policiais entrem na casa de “suspeitos” de terrorismo, mantenham soldados nas ruas, com seus fuzis, e um amplo contingente policial.

 

Uma sociedade que, no lugar de se tornar mais pacífica, fica mais cada vez mais autoritária. Ou o que acontece na França é uma repetição do que aconteceu no Brasil ou um anúncio do que está por vir.

 

 

Fonte: DCM