O povo boliviano, que nos anos 90 livrou múltiplas batalhas contra as expressões das políticas neoliberais, foi construindo uma organização e uma consciência popular que derrubou tentativas como as da privatização da água ou a entrega de sua riqueza em gás natural. No início desse novo século, ficou evidenciada uma confrontação aberta entre dois modelos antagônicos: um baseado na continuidade do controle político por uma elite minoritária para assegurar os controles no econômico e social. Isso supunha manter a injusta distribuição da riqueza e das oportunidades. O outro modelo se apresentava como uma forma imprecisa de mudança e transformação, que apontava para o controle dos recursos nacionais e para o nivelamento das desigualdades, outorgando participação e direitos sociais básicos, como educação e saúde às massas indígenas e camponesas, até então ignoradas e marginalizadas pelas classes dominantes.

Nasce o "instrumento político"

A expressão política que conseguiu dotar esses setores sociais majoritários com organização e consciência foi liderada por um sindicalista de origem indígena e camponesa. Simples e elementar para a direita e para os analistas políticos, Evo Morales começou sua incansável tarefa de somar vontades e explicar com as palavras justas, porém compreensíveis para seu povo, a necessidade de unir-se para mudar esse injusto estado de coisas herdado desde tempos da Conquista. Assim nasceu o que eles denominaram "o instrumento político".

A fundação do MAS (Movimento Al Socialismo) afrontou a risco de transformar-se, como outras experiências bolivianas, em um partido cuja ação política pouco ou nada tivesse com suas siglas, como é o caso do histórico Movimento Nacionalista Revolucionário ou do Movimento de Esquerda revolucionária. Porém, nesse caso, a experiência de luta popular encontrou uma liderança firme e clara, surgida de suas próprias filas que partilhou avanços e retrocessos e acompanhou bloqueios e mobilizações. Evo, ao referir-se aos processos eleitorais, advertiu que qualquer possibilidade de mudança através do voto não significava uma aposta ou um cheque em branco. Tratava-se de exercer essa possibilidade democrática com todas as limitações existentes e sem ‘baixar a guarda’; sem desmobilizar-se; sem abandonar o envolvimento cidadão após votar. Porém, não somente advertiu; uma vez ganhas as eleições há exatamente quatro anos, colocou tudo em prática. E foi cumprindo seus compromissos: a nacionalização dos hidrocarbonetos; a convocação para a Assembleia Constituinte; o reconhecimento dos direitos indígenas; o bônus ‘Juancito Pinto’, para todos os estudantes; a ‘Renda Dignidade’, para os idosos/as; ou a ampliação dos serviços em educação e saúde.

Sempre recordou que a força está no povo unido e consciente de seus direitos e de seus objetivos. Evo Morales e seu vice-presidente, Álvaro García Linera, explicaram que a fortaleza de uma possibilidade de mudança estava na acumulação social, na base ativa dessa mudança. Por isso, não ficaram somente em consignas e em ações dirigidas unicamente aos indígenas ou aos camponeses; mas, nessa segunda fase do processo, intensificaram seu trabalho com setores médios e profissionais e entraram nos bastiões da oposição, como Pando ou Santa Cruz de la Sierra. O resultado está à vista. Em quatro anos não somente obtiveram uma histórica reeleição; mas, o significativo apoio de 53,7% dos votantes se transformou em um estrondoso 63,3% dos votos e na obtenção da maioria necessária na Assembleia Legislativa, o que permitirá impulsionar as leis e as normas que permitam desenvolver os princípios da Nova Constituição Política do Estado (CPE), aprovada em referendo no início deste ano.

Um caminho minado

O que foi conseguido nesses primeiros quatro anos superou as previsões mais otimistas. No caminho foram derrotadas as conspirações urdidas pelas correntes que se alternaram e se beneficiaram do poder. Conservadores, neoliberais; autoritários nostálgicos das ditaduras militares; e capatazes das multinacionais estrangeiras ensaiaram boicotes; algazarras violentas, matanças de camponeses, como em Pando; tramas golpistas, como em Santa Cruz de la Sierra, com sicários contratados no exterior; subornos; difamações ou mentiras; e manipulação constante através do controle dos principais meios de comunicação. Tudo isso e mais deveriam enfrentar as correntes populares que reconhecem a liderança de Evo Morales. Essas investidas que, às vezes, pareciam definitivas foram fortalecendo o movimento popular, que soube tirar lições de cada choque com aqueles que pretendiam deter as mudanças. Cada erro teve que ser corrigido; cada acerto, multiplicado.

Aprendendo a construir

Esta experiência exige uma profunda reflexão a todos os que lutamos por essas mudanças necessárias em nosso continente. Aos que livramos essa velha batalha pela justiça social; por eliminar desigualdades; por recuperar a soberania sobre nossos próprios recursos. Não para estimular torpes tentativas de "copiar" modelos; mas, para resgatar os princípios básicos da luta do povo boliviano. Entre eles, a construção de baixo para cima; desde a base social, que é o sustentáculo e a força natural da mudança. A perseverança e a paciência na tarefa política. A simplicidade e a humildade exercida a partir da liderança, acompanhadas por uma conduta honesta que se converte em exemplo a seguir.

A mudança em mãos do povo

O povo boliviano celebra sua vitória. Como disse Evo Morales, este triunfo eleitoral "quer dizer que a revolução democrática cultural e social deixou de ser uma bandeira de um partido e se converteu no projeto político do povo boliviano". Será difícil que essas massas indígenas e camponesas, que, com sua própria luta, ganharam espaços de participação e dignidade, aceitem um retrocesso. O fatalismo histórico e seus mentores intelectuais e dos meios de comunicação foram derrotados pela consciência e pela vontade popular. Porém, seria errôneo supor que este é o ponto de chegada. Ao contrário, é um ponto de partida, no qual se multiplicarão os riscos. Riscos internos para controlar a burocratização e a soberba; ou a corrupção a partir dos cargos públicos; ou para manter a firmeza em encaminhar as mudanças imprescindíveis.

Porém, também existem riscos externos desse conglomerado de resíduos do antigo sistema que continua controlando o poder econômico e midiático e são os ‘testa de ferro’ de multinacionais acostumadas a "comprar" governos e legisladores. Sempre rechaçaram a possibilidade de perder seus privilégios e seu controle político, econômico e social. Agora sabem que esta não é uma conjuntura, mas uma virada histórica. Gravemente feridos, são mais perigosos. Têm sido capazes de recorrer à violência quando esta não era imprescindível. Agora pode ser que a considerem como o único caminho para evitar seu definitivo derrocamento. Certamente, os que bem sabem disso são os irmãos bolivianos que souberam chegar a este memorável seis de dezembro. Eles demonstraram o mais difícil: que tudo é possível quando há consciência e organização popular. Resta-nos apoiá-los, conscientes de que sua vitória também é nossa; é a vitória de todos os povos da América Latina. E colocar em prática que esse potencial do povo boliviano está na força coletiva, isto é, na vontade ativa de cada um de nós.

Fonte: Agência Adital. As informações são da Serpal (Serviço de Prensa Alternativa). Matéria de Carlos Iaquinandi Castro. Tradução: Adital.

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